FISSURAS

Novembro 17 2009

 

O compasso, indiferente à volúpia que a ansiedade vem escrever nas ruas da cidade, percorre as agruras do inalterável. Chovem chafarizes de água monótona. Hoje a noite vestiu-se de chuva e, passiva, estendeu os carros sobre o pavimento molhado. São nove da noite. Ou talvez dez. A hora mudou e nós mudámos com ela. É sempre tarde. Nunca há ir e voltar quando se volta sempre. E a madrugada não permite insónias, só as que se permitem madrugar. Choveu mesmo muito, hoje. E as pessoas correm pelos passeios em cujas beiras se aglomeram lençóis de água e restos de lixo que já foi novo, por usar. Ninguém se apercebe, mas quiseram os homens que chovesse hoje. E a chuva caiu, serena, sem tocar ninguém (porque ninguém realmente a sente tocar-lhe). Hoje são chuvas de que amanhã não nos lembraremos. Hoje é Outono cerrado. Hoje é dia que vai morrer. Morram as lembranças vãs com ele. Role este pensamento pelas s ruas, junto com o lixo que já foi novo, por usar.


 

publicado por Catarina Pinho às 18:18

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